quarta-feira, 11 de abril de 2007

O uso de película nos vidros do carro.

Autoria/Consolidação de texto: Márcio Roberto de Almeida.
A análise das opiniões de algumas autoridades de trânsito e, também, dos principais jornalistas automobísticos do país, Fernando Calmon, Boris Feldman, Bob Sharp e Luís Felipe Figueiredo, que se contrapõem à regulamentação de películas escuras para os automóveis, nos permite algumas conclusões interessantes:


Fator de Segurança:

A possível incerteza de assaltantes quanto ao sexo ou à fragilidade do motorista ou, ainda, a existência de uma arma no carro são os principais argumentos em favor da película como fator de segurança. Entretanto, as autoridades mencionadas, em um debate reprisado pela Globonews recentemente, citam pesquisas universitárias realizadas entre presidiários no estado do Rio de Janeiro que indicam resultados surpreendentes:


1) Assaltantes preferem roubar carros com película, por três motivos principais:

a) no momento do roubo desse carro a vítima, eventualmente feita refém dentro do veículo, fica camuflada pela película e não desperta a atenção das pessoas ao longo da rota de fuga;

b) carros são roubados para serem usados em outros crimes. Assim, a película garante a necessária privacidade para se transitar com seu aparato (armas, drogas, etc...) durante os preparativos e deslocamentos para essas novas ações;

c) muitos crimes realizados com o uso desses carros roubados, exigem o sequestro de reféns que são levados, quase sempre sob a mira de armas, o que torna os carros de vidros claros inadequados.

2) O contato visual do motorista com o pretenso assaltante é comprovadamente um
importante fator de inibição da abordagem planejada, sobretudo se o condutor do veículo mostra estar atento e ostenta segurança e vivacidade, encarando o suspeito nos olhos.

3) Ao invés de inibir a ação criminosa, a película escura pode estimular a curiosidade em alguns indivíduos e, além disso, pode incitá-los ao "desafio" como forma de mostrar aos seus pares que possui coragem e valentia, atributos determinantes de poder e estatus na "ética" do crime.


Além disso:

4) a tranquilidade decorrente da pseudo-segurança no interior do veículo faz com que o motorista relaxe e despreze outras atitudes, especialmente em relação à atenção permanente aos movimentos nas proximidades;

5) a película escura reduz também a visibilidade do motorista nas mesmas proporções, dificultando a percepção de bandidos que porventura se aproximem à pé e que, normalmente, agem em ambientes com baixa luminosidade;

6) a redução da visibilidade põe em risco pedestres e ciclistas, além de dificultar a visão de pequenos obstáculos, sobretudo nas áreas pouco iluminadas, o que poderá contribuir para atropelamentos e acidentes;

7) pedestres em áreas pouco iluminadas têm muito mais condições de evitar atropelamentos quando vêem o motorista e se certificam de que foram vistos por ele;

8) a redução da eficiência dos espelhos retrovisores, causada pelas películas, especialmente à noite, pode provocar acidentes;


Índice de Transparência:

O Conselho Nacional de Trânsito (Contran) determina uma transparência mínima de 75% no pára-brisas e 70% nos vidros laterais. Contudo, as películas comercializadas nominalmente com esses índices de transparência, quando sobrepostas aos vidros, que possuem também sua perda natural de transparência, superará esse valor permitido, o que se agrava nos casos de vidros fumê e degradê. Portanto, estima-se que quando os equipamentos que medem a transparência das películas nos vidros chegarem às ruas, pelo menos 80% dos usuários serão notificados.


Os Interessados:

A única manifestação junto à comissão de Constituição e Justiça do Congresso em favor da regularização e da diminuição do índice de transparência é da Associação Nacional de Produtores de Película (Anepp), ou seja, a motivação de uso de película é derivada unicamente do interessse comercial dos vendedores de película que, por sua vez, produziu o atual modismo.


Outros prejuízos advindos com o uso da película:

Comunicação Visual - Agentes de Trânsito:

1) Para a sinalização eficiente dos agentes de trânsito, é necessário que estes, inicialmente, verifiquem se o motorista está atento e, depois, estejam seguros de que a sua mensagem foi recebida;

2) o agente de trânsito necessita contato visual para averiguar a regularidade de motoristas quanto a uso de cintos de segurança, uso de celulares, direção com uma mão só, dentre outros aspectos.


Cordialidade:

Com o uso de películas escuras obstruindo o contato visual entre pessoas nesse trânsito cada vez mais impessoal e violento, um importante fator de humanização deixará de existir: O simples contato visual, fundamental para um convívio minimamente humanizado entre pessoas, será abolido do trânsito congestionado das cidades e, em mais um ponto, a película trará efeitos nocivos;


Cortesia:

Um simples aceno para oferecer ou pedir passagem a outro motorista, apesar de se tratar de um gesto aparentemente banal, além de demonstrar educação e cortesia, é um importante fator de harmonia no convívio social das ruas engarrafadas; gesto este que fica impossibilitado e será abolido em decorrência do uso da película.


Vaidade:

Não há como negar que o automóvel seja um dos mais importantes símbolos de estatus social. No entanto, a película impede que o cidadão ostente o sucesso que poderia ser revelado enquanto dirige seu automóvel, uma vez que o mesmo não será visto por terceiros.

Concluindo, os três principais argumentos favoráveis à utilização de películas escura têm suas razões postas à prova, quais sejam:

1) razões estéticas: são questionáveis, uma vez que as pessoas evitam observar um automóvel de vidros escuros, seja por discrição, por escrúpulo ou por receio;

2) razões econômicas: não se sustentam pois a mencionada economia pela redução do uso do ar condicionado é praticamente nula em quaisquer circunstâncias;

3) razões de segurança: são, no mínimo, controversas, dadas as ponderações vistas acima.

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