terça-feira, 9 de setembro de 2008

O Menino Carreiro

Conto de D´Álvares, publicado no Jornal Foha do Sudoeste, da cidade de Jataí, em 05/08/2008.

(http://www.folhadosudoeste.com.br/912%20P%C3%A1g%20B2%20-%20Social%20-%20Vitrine.pdf)

Uma bela crônica que rende homenagens a tantos contemporâneos nossos que um dia foram candinheiros, carreiros e carregadores de carro de boi; funções quase esquecidas pela sociedade moderna, embora ainda permaneçam tão importantes nos rincões desse país.

"O grotão era fundo e meu carro tombou. A custo que me livrei de morrer juntamente com o meu pé-de-guia "Brilhante", que era um dos melhores animais. A madeira maciça de aroeira que lotava o carro rolou por cima de minhas seis juntas de bois, e dos dezesseis canzis, quatro quebraram em pedaços.Tive que chamar os vizinhos para ajudar a tirar a madeira de cima dos animais, a destombar o carro e arrastá-lo do fundo do grotão. É que minha esposa estava barrigudona de seis meses e a casa ainda por terminar, então eu estava meio preocupado com o conforto dela, pois uma mulher precisa de conforto, ainda mais quando tem criança nova, e resolvi lotar o carro demais da conta. Mas foi um susto quando vi aquele montão de toras rolar por cima dos bois, e eu rolando no meio delas. Várias juntas de bois foram empregadas para retirar meu carro do grotão. Amarraram cordas grossas nos argolões do carro e o retiraram de lá.Não sei como não morri. Desta data em diante, fiquei mais cuidadoso com as coisas.

Mas o que mais me encantava mesmo era o fato de eu ser maior e poder carregar na cintura meu revólver, uma cartucheira a tiracolo e ter meu próprio carro de boi. Aquilo me era honroso.

Um dia, antes de eu começar a namorar minha mulher, convidaram-me para carrear milho. Era milho que não acabava mais. Eu achava bom quando meu carro-de-boi rivalizava com as cigarras no cerrado de minha terra.Minhas cantadeiras tinham um canto grave e forte, que se ouvia a léguas de distância.

E os moradores diziam que lá vinha o mais novo e forte carreiro. Foi dessa forma que minha esposa ficara sabendo da fama, fama do homem mais trabalhador, mais bonito, mais armado e que tinha o carro-de-boi mais novo e grande da região.Esses predicativos eram importantes numa terra em que se sobressaíam os corajosos, e faltavam livros e a destreza da caneta.

Ela ficou fascinada com minha fama e pediu à criada - naquele tempo só se conhecia "criada", e não "ajudante" - que desse um jeito de fazer com que eu soubesse da existência dela.

E a criada não se fez de rogada. Falou logo que, na primeira festa de São João que tivesse por aqueles lados, ela estaria engajada comigo. E foi dito e feito. A festa realizou-se na casa de meu sogro, com todos os doces e biscoitos possíveis.

Mas a coisa não foi tão fácil assim. É que a criada, mesmo tendo-me descrito perfeitamente, e ficar pajeando na beira de um estradão carreiro para me conhecer melhor e passar certa a informação, não conseguiu descobrir exatamente a hora de minha chegada, nem a cor do meu cavalo, porque eu morava longe dali e não era sujeito de ficar pavoneando a torto e a direito, só pra dizer que era homem.

Mas que eu aceitava ir conhecê-la ficou afirmado, porque a criada tinha um "rolo" com um peão lá da roça. Ele me adiantou logo que eu não ficasse passando muito perto daquela casa, porque o último que tinha rondado lá, amanheceu no meio da coivara, com "o instrumento de fazer filho" pregado num toco. Isso me deixou apreensivo. E o velho, na verdade, ria muito pouco. A rigor, ali por perto pouca gente contava causos em que um riso do pai de minha esposa era citado. Um baianinho mentiroso, que gostava de caçar tatu, dizia que já o havia ouvido dar gargalhadas. Mas eu não estava pensando nisso, nem iria atrás de mentiroso pra saber de risada dos outros, cisma do velho eu tinha.

Mas eu possuía também os meus recursos. Conversei com meu candinheiro, o mesmo senhor que me ajudou a fazer o carro, que ficasse de olho nas curvas, pois se visse um movimento diferente não precisava me consultar não, era pra fazer o covarde cair em cima do rasto, porque gente boa não ficava escondida nas curvas, com carabina armada pra esperar os outros.

E eu confiava muito nesse moço, pois foi ele quem escolheu a madeira pra confecção do carro. "Cabriúva' é melhor do que Jacarandá, para fazer eixo!" - Explicava ele. E não é de ver que o carro ficou dos melhores! Na tal festa, o que não faltou foi rapaz. E eu não cheguei muito cedo, porque até neste dia eu trabalhei de sol a sol. Entretanto, esse atraso quase que me custa a namorada. Ela, cansada da espera e já pensando que era muita arrogância minha ficar esnobando a filha mais bela do fazendeiro mais rico da região, deu bola para um fazendeirinho metido, que dizia ter mil cabeças de gado no pasto. Mas eu não sabia que chapadão e cerrado eram pastos, porque formar um de capim jaraguá ou gordura ele não tinha coragem. Preguiça é o que não faltava naquele sujeito. Aí, ele se adiantou e chegou perto dela, tirou-a pra dançar e conversou lá "uns trem besta" com ela, "trem" que eu não gostei de jeito nenhum. Eu cheguei, e a criada já foi me falando tudo, que o fazendeirinho estava de golpe pra cima da princesa. Fiquei indiferente, porque talvez a menina nem chegasse a ser realmente princesa, sendo que, muitas vezes, a dona do álbum não é identificada pelas fotos que ele contém. Podia ser uma sapa, um negócio que nem 10 mil alqueires de terra davam para amolecer o coração do pretendente.

Entretanto, quando vi a moça, fiquei desolado.

Eu, que já havia bebido uns goles de quentão, chamei o sujeitinho de lado. Ele foi, mas levou mais uns cinco da mesma marca dele. Eu, pensando que já ia apanhar mesmo, ou até perder a vida, porque goiano daquele tempo não costumava bater devagar, nem com bainha do facão, dei logo uns tiros pra cima e a negada guardou na capoeira. Teve uns deles que deixaram até os revólveres pra ficar mais leve pra correr. E a festa acabou. O velho mandou os capangas dele darem busca no cerrado, pra pegar os desordeiros. Não achou ninguém. Mas ficou sabendo que fui eu quem deu os tiros e prometeu judiar de mim.

Passados alguns dias, voltei para terminar de puxar o milho e terminei logo, porque meu carro pegava 40 jacás de duas mãos. Mas, aquele negócio de ter sido ameaçado pelo pai da moça mais bonita do lugar me deixou engasgado.

Até que morrer não era coisa por demais dura não, difícil mesmo era ser castigado, e ainda saber que não ia ter nenhuma chance. E quando o carro cantava naquele sol quente das três horas da tarde, eu sentia uma coisa ruim demais subir pela minha garganta e trancar minha respiração, me sufocar inteiro. Então, eu ficava olhando para as fileiras de bois, e não tinha muita disposição pra gritar com o "malhado", o "corajoso"..., como eu fazia de primeiro.

Mas o grito do candinheiro eu escutava, quando ele falava com os "bois-de-guia" "Deseerto..., Correeente! Ôa!" Aí, eu pensei um pouco, falei com o peão que conhecia a criada. Ele me disse que a moça havia dito que estava por demais animada comigo, porque eu mostrei coragem para defender o meu lugar. Fiquei feliz. Já que a moça também me tinha admiração, era só resolver o resto com o velho. E que parada não seria esta! E olhe lá que se a cambada dele não fosse boa de briga ia acabar amarrada com meu tirante, pois eu não estava para brincadeira. Eu os amarraria com meu tirante e com o ferrão dos bois eu lhes daria ferroadas a valer! Mas eu fui adiando um pouco o encontro.

Talvez a família do velho mesmo desse um jeito nele, amolecendo-lhe o coração, não deixar a filha sofrendo. Contudo, isso não foi de jeito.

Resolvi agir. Peguei minhas armas costumeiras, enchi o cinturão de balas e fui lá na casa do velho. Se quisesse me matar, que matasse, que não ia continuar com tanta vontade de ver a moça e com medo de ser morto numa tocaia. O primeiro que me viu descer do manga-larga foi um sujeitinho branquicela, que parecia ter saído de uma anemia. Mas fiquei sabendo, dias depois, que o rapaz ficou branco foi de medo mesmo, porque no momento em que o velho me visse ali, o tiroteio seria inevitável. E fui entrando pátio adentro.

Assim que o velho me viu, aproximou-se e perguntou o que é que eu desejava. Eu disse que não era nada de grave, é que eu estava ali para resolver o "negócio dos tiros da festa de São João..." Ele se embaraçou. Pois um homem muito valente, quando encontra outro que lhe faz parelha, não sabe bem o que fala. Ficou me observando de cima em baixo e perguntou se eu nunca tive medo da morte. Falei que morte é coisa que existe desde que existe vida, e que isso não ia mudar em nada a nossa prosa. Ele saiu até a porta da frente, desceu os degraus do baldrame e chamou um senhor que amansava um potro, lá no pátio. Este veio e era forte.

Destemido. Reconheceu-me assim que bateu os olhos em mim e já foi perguntando ao patrão se queria que me quebrasse as pernas logo de uma vez.

O velho me olhou novamente. Subiu de volta os degraus e me mandou sentar. Pensei logo que ele estava armando alguma coisa. Mas não. Ele trouxe a filha e perguntou se era comigo que ela estava de recadinhos. Ela, tímida que dava dó, respondeu que sim. O velho a mandou de volta para o quarto e leu o "abc da onça" pra eu ouvir. Concordei com tudo. E como o costume era de "pouco namoro e breve casório", noivei-me no mês seguinte, casei-me um ano depois e já sou pai de uma cria que vai herdar muita coisa que já tenho e o muito que vou construir.

Depois desse breve esclarecimento eu lhe digo, amigo leitor, que tive que fazer meu carro-de-boi quase que por completo. Fi-lo com zelo, que coisa de carpintaria eu entendia um pouco. E este carro ainda cantava mais do que o outro, porque eu coloquei um eixo especial, cocão e cantadeiras bem ajustados para isso.

Não demorou eu terminar de puxar o milho do fazendeiro dono da roça, e daí em diante cuidei de zelar das minhas rocinhas, que eu não tinha muito tempo a perder. E numa última viagem é que meu carro-de-boi mostrou que era o melhor e meus bois os mais adestrados da região, já que desde eles bezerrinhos que eu os atrelava e, em seguida, colocava-lhes cangas, e quando eles se mostravam adestrados, aptos para a obediência e para a força no carro, eu os conduzia aos canzis das cangas. Fui atravessar um vau, em que a água estava um pouco alta, porque havia chovido muito naqueles dias. A água vazou a esteira e encharcou parte do milho, e as chapas de ferro das rodas do carro cortaram a areia mole do fundo da água, fazendo a roda afundar até encobrir as cambotas de Bássimo. Eu digo que nunca vi boi fazer força daquele jeito. Ajoelharam e bufavam, com a água quase entrando pelas ventas. Mas vi quando o cambão se ergueu novamente e o carro aluiu do atoleiro. Fiquei emocionado demais, isso nem parecia ser verdade, ver aqueles doze bois ajoelhados n'água para arrastar um carro cheio de milho. Isso sem levar nenhuma ferroada! Lembrei de um velho barbudo, do tempo de minha infância. Quando os bois carreiros não davam conta da carga, ele se apossava do ferrão e sangrava fundo as ancas dos animais.

Eu sempre quis ser carreiro, contudo, pensei em fazer diferente: respeitar meus bois. E após a passagem do vau, eu soltei meus bois numa invernada verdinha e os deixei em paz por uns dois meses. Até parece que os animais entendem os castigos e os prêmios que nós, homens, impomos sobre o lombo deles. E eu fiquei feliz lá na casa nova, juntamente com minha esposa e meu filho. E a vida do sertão me era bela.

Tudo que eu queria eu tinha ali. Minha maior preocupação era plantar e colher, cuidar do meu gado, da esposa e do filho e de afazeres corriqueiros.

Mas, numa bela manhã de primavera, em que os pássaros cantavam majestosamente perto de minha janela, e que eu ia chamar a esposa e o filho para ver o rosto do mundo que se abria para assistir a nossa felicidade, meu pai me acordou para irmos tomar café.

Assustei-me e perguntei a ele se ia cortar um vinhático para fazer o eixo do meu carrinhode- boi. Ele disse que sim e virou o rosto e entrou a falar de outros assuntos com a mamãe. E eu carrego este carro dentro de mim, um carro cheio de milho, um carro puxado por seis juntas de bois adestradas, um carro que vai ficando pesado pelos anos e que, às vezes, já canta desafinado... E minha esposa e tudo que vivi em sonhos devido à promessa de meu pai são imortais. E o carro-de-boi roda dentro deste homem que amadureceu e levou junto as primeiras impressões da infância..."

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