quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Exercícios expurgam do corpo substância depressiva

Segundo estudo inédito da Suécia, a prática de atividades físicas faz com que o tecido muscular esquelético retire do sangue um composto que compromete as funções cerebrais
» Bruna Sensêve (Correio Braziliense 26/09/20140)
Durante a atividade física, não é só o suor que ajuda o organismo a se livrar de substâncias ruins e tóxicas ao organismo, o tecido muscular esquelético exerce papel semelhante expurga a depressão.

A liberação de hormônios proporcionada pela prática de esportes conhecidamente promove uma sensação de bem-estar e satisfação, mas o segredo da atividade física como forma de combater ao distúrbio psiquiátrico não se limita a isso. Uma série de alterações metabólicas acontece em cadeia, principalmente no tecido muscular esquelético, que consegue tirar do sangue uma substância que se acumula em situações de estresse e é altamente prejudicial ao cérebro.

A descoberta foi relatada na edição de hoje da revista científica Cell por um grupo de pesquisadores do Instituto Karolinska, na Suécia. Liderados por Leandro Agudelo, os cientistas chegaram a essa conclusão após experimentos com camundongos. Eles partiram do conhecimento de que, durante a prática de exercícios, a PGC-1alpha1 se acumula no tecido muscular esquelético. Essa proteína é mediadora do benefício do condicionamento muscular a partir da prática de atividades físicas. Com essa constatação em mente, produziram cobaias geneticamente modificadas para ter alto nível de PGC-1alpha1, simulando os resultados químicos de um organismo com músculos bem treinados.
Animais modificados e normais foram expostos a situações de estresse, como ruído alto, luzes piscando e inversão do ritmo circadiano (dia/noite) em intervalos irregulares. Após cinco semanas de estresse leve, os camundongos sem alteração genética desenvolveram comportamento depressivo. Os modificados, não. Ao analisar mais profundamente as alterações metabólicas nas cobaias, os pesquisadores descobriram que as com alta concentração da proteína também tinham índices mais elevados de enzimas KAT, responsáveis por converter a quinurenina, uma substância formada durante o estresse, em ácido quinurênico. Essa transformação é benéfica ao cérebro.
“Nossa hipótese inicial de pesquisa foi que o músculo treinado produziria uma substância com efeitos positivos ao cérebro, mas, na verdade, encontramos o oposto. Músculos bem treinados produzem uma enzima que limpa o corpo de substâncias nocivas, evitando que elas ultrapassem a “barreira hematoencefálica”. Portanto, nesse contexto, a função do músculo é uma reminiscência do que vem do rim ou do fígado”, explica Jorge Ruas, investigador do Departamento de Fisiologia e Farmacologia do Instituto Karolinska e autor do trabalho.

Alterações bioquímicas
Para confirmar a descoberta, os pesquisadores forneceram aos dois grupos de cobaia altas doses de quinurenina. Mais uma vez, as normais exibiram comportamento depressivo e as modificadas geneticamente, não. A função exata da quinurenina não é conhecida, mas níveis elevados dela podem ser medidos em pacientes com doenças mentais. “Em termos neurobiológicos, nós realmente ainda não sabemos o que é a depressão. Nosso estudo representa mais uma peça no quebra-cabeça, uma vez que fornece uma explicação para as alterações bioquímicas de proteção induzidas pelos exercícios físicos que impedem que o cérebro seja danificado durante o estresse”, completa Ruas.
Os pesquisadores acreditam que as descobertas podem representar um novo princípio para ações farmacológicas no tratamento da depressão. Em vez de elas agirem diretamente no cérebro, estimulariam a função muscular esquelética. “Esse músculo parece ter um efeito de desintoxicação que, quando ativado, pode proteger o cérebro de danos e doença mental relacionada”, conclui Ruas. Coordenador do Centro de Medicina do Exercício e do Esporte do Hospital 9 de Julho, Ricardo Nahas ressalta que a novidade do estudo é a descoberta de um neurotransmissor envolvido no processo de prevenção, já que, há algum tempo, se sabe da relação entre atividades físicas e tratamentos contra ansiedade, estresse, depressão e dependência.
“Sempre pensamos que o exercício melhorava as condições do indivíduo em geral com a queda da gordura corporal e a formação de novos vasos sanguíneos, mas o trabalho mostra uma ação direta do músculo e a produção de uma substância que protege o cérebro da depressão.” Nahas relata que, até então, os benefícios para o cérebro eram comparados e acompanhados pelos ganhos cardiovasculares conquistados com os exercícios físicos.Hoje, os principais efeitos dizem respeito à produção de hormônios como a serotonina e a endorfina. “O primeiro antidepressivo criado, o Prozac, funciona principalmente pelo aumento da quantidades de serotonina no cérebro”, complementa.

Hormônio do bem-estar
A endorfina é uma substância natural produzida pelo cérebro durante e depois de uma atividade física que regula a emoção e a percepção da dor, ajudando a relaxar e gerando bem-estar e prazer. A substância é considerada um analgésico natural, reduzindo o estresse e a ansiedade, aliviando as tensões. Por isso, recomendada no tratamento de depressões leves. Como se trata de um mecanismo provocado pela adaptação do corpo ao exercício, a endorfina vai sendo liberada gradualmente. Em determinado momento, atinge um limiar de produção, provocando a sensação de bem-estar que persiste mesmo depois da atividade física. Algumas pesquisas mostram que os efeitos da endorfina são sentidos até uma ou duas horas após a liberação delas.Outras indicam aumento das dosagens desse hormônio até 72 horas depois.

Serotonina reavaliada
Uma das principais justificativas para o surgimento da depressão é a deficiência de serotonina, neurotransmissor que tem entre as funções a regulação do sono e do apetite. Novas evidências científicas, no entanto, indicam que o hormônio pode não ser o único responsável pela doença. Um trabalho publicado na última edição da revista científica ACS Chemical Neuroscience relata que camundongos sem a capacidade de produzir serotonina no cérebro, diferentemente do imaginado, não apresentaram depressão e ansiedade.
A equipe de pesquisadores liderada por Donald Kuhn, da Escola de Medicina da Universidade de Wayne State, nos Estados Unidos, se propôs a estudar se a serotonina exerce alguma influência sobre o problema psiquiátrico e qual seria. Para fazer isso, analisaram testes comportamentais em camundongos modificados para não produzir a serotonina no cérebro.Curiosamente, as cobaias ficaram compulsivas e extremamente agressivas, mas não mostram sinais de depressão e ansiedade. Outra descoberta surpreendente é que, quando colocadas sob tensão, as cobaias se comportaram da mesma maneira que a maioria dos animais normais. “Os resultados mostram que a serotonina não é um ator importante para essa condição e diferentes fatores devem estar envolvidos”, avalia Kuhn. Ele acredita que novos estudos nesse sentido poderão alterar drasticamente a busca por novos antidepressivos. Com as drogas disponíveis hoje, estima- se que entre 60% e 70% das pessoas medicadas continuam a se sentir deprimidas.

EPIGENÉTICA
Busca por modificações no genoma do sangue
Por muito tempo, prevaleceu a ideia de que os genes eram os únicos responsáveis pela formação de características biológicas também transmitidas de pai para filho. Pesquisas científicas derrubaram esse conceito mostrando que variações não genéticas, chamadas de epigenéticas, são adquiridas durante a vida e podem ser passadas para as gerações futuras. Trata-se de modificações no genoma que não alteram a sequência do DNA, mas dependem de pequenas mudanças químicas no sequenciamento e em proteínas que envolvem esse material genético. Dois estudos publicados na edição de hoje da revista científica Science descrevem como a epigenética atua diretamente nos componentes sanguíneos do sistema imune.
Os artigos trazem resultados do projeto de pesquisa em larga escala chamado Blueprint, financiado pela União Europeia. São 41 universidades, institutos de pesquisa e empresários do setor unidos com o objetivo de aumentar a compreensão de como os genes são ativados ou reprimidos nas células humanas saudáveis e doentes. O trabalho está focado nos tipos distintos de células hematopoiéticas (que geram diversos constituintes do sangue) de indivíduos saudáveis e com leucemia maligna. A intenção é gerar pelo menos 100 epigenomas de referência que poderão ser estudados para avançar e explorar o conhecimento sobre os processos e mecanismos biológicos na saúde e na doença.
O primeiro artigo publicado pela equipe de Mihai Netea, imunologista do Centro Médico da Universidade de Radboud, na Holanda, demonstrou, ainda em nível molecular, como a modulação epigenética pode regular a diferenciação de células sanguíneas que fazem parte da primeira defesa do organismo: o sistema imune inato. Em especial, ele verificou que é possível manipular o processo de transição de monócitos para macrófagos, que são responsáveis pela digestão de restos celulares. Isso aconteceria como“ treinamento” dessas células. “A educação envolveria ligar ou desligar os genes com o uso de proteínas modificadas quimicamente, chamadas histonas, que cercam o DNA”, explica. Drogas para fazer essa modificação epigenética já são utilizadas no tratamento de cânceres e poderiam ser adotadas para a modulação da imunidade inata, segundo Netea.

O outro trabalho concentra-se também na resposta inata do sistema imunológico mas com a hipótese de que ele é incapaz de montar respostas de acordo com os patógenos. A teoria é contestada amplamente por pesquisas que mostram insetos sem um sistema imune com esse caráter específico, mas capazes de responder de forma adaptativa a infecções— fenômeno chamado de imunidade inata treinada. Liderados por Shih-Chin Cheng, os cientistas avaliaram a atividade de células brancas do sangue (monócitos) que tinham essa imunidade induzida treinada. Após alguns experimentos, descobriram que um “interruptor” epigenético controla se os monócitos montam essa resposta imune ou não. A esperança dos pesquisadores é usar essa informação para tratar futuramente doenças autoimunes e outras complicações.

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