sábado, 3 de junho de 2017

Ditados populares

Esses provérbios são seculares, mas têm sido objeto de distorções. Algumas o professor Pasquale Cipro Neto esclarece em sua página, chamando de sabichonices de aventureiros, outras são pesquisas nossas.
Vejam o teor original e o significado de cada um.

1) "Esse menino parece bicho carpinteiro": O termo BICHO CARPINTEIRO está em todos os dicionários tradicionais como sinônimo de "Pessoa inquieta, agitada, desassossegada, que não sabe esperar sua hora num jogo, por exemplo. A origem do termo vem de uma espécie de besouro de mesmo nome (bicho carpinteiro), que penetra entre a madeira e a casca das árvores, fazendo com que as cascas se movimentem continuamente.
A versão divulgada por aí falando de "bicho no corpo inteiro" é invenção sem sentido.

2) "Quem tem boca vai a Roma" é da época do império romano e significa dizer que quem sabe se comunicar e perguntar (quem tem boca, do latim), consegue ir a qualquer lugar, ainda que seja longínquo e difícil.
Uma variante antiga do Português clássico é "Quem língua tem, a Roma vai e vem" e o mesmo ditado em espanhol: "Preguntando se va a Roma" e em francês, "Qui langue a, à Rome va".
Essa história de "Vaiar Roma" é mera invencionice tola, sobretudo porque Roma é uma denominação geográfica e não faz sentido "vaiar" uma região.

3) "Cor de burro fugido" ou "cor de burro quando foge" é um ditado da época das comitivas de tropeiros, que quer dizer qualquer cor. Naquela época era muito comum os burros soltarem amarras ou arrombarem cercas e fugirem dos acampamentos, deixando o tropeiro a pé ou sem o seu cargueiro. Diante dessa situação, qualquer burro fugido que o tropeiro encontrasse pelos caminhos, espertamente ele afirmaria ser o seu, independente da cor. Consta também da literatura clássica como sendo uma das artimanhas de Pedro Malazarte.

4) "Batatinha quando nasce esparrama pelo chão, menininha quando dorme põe a mão no coração" faz parte de uma coleção de cantigas de roda adaptada pelo poeta português Fernando Pessoa no século dezenove. Essa história de "espalha a rama" é mera invencionice de algum internauta pouco letrado e metido a engraçadinho, que infelizmente se espalhou pela WEB. Isso, além de quebrar a métrica da poesia, não tem graça nenhuma e não faz sentido.

5) "Quem não tem cão, caça com gato" é outro ditado muito antigo, presente na literatura clássica Brasileira. Significa dizer que quem não tem o recurso próprio para a situação específica, se vira com o que tem em mãos. Faz alusão ao fato de que usar um gato como animal caçador seria uma espécie de "quebra-galho" improvisado, já que o bom cão de caça era raro e caro.
Porém, algum aventureiro inventou essa história de que, quem não tem cão caça "COMO GATO", o que inverte o sentido original do ditado, pois o gato, sozinho e voluntariamente, consegue caçar com muito mais eficiência do que um cão, ainda que não obedeça o caçador.

6) "Cuspido e escarrado" é uma expressão usada para enfatizar a semelhança entre duas pessoas. Segundo o professor Duarte Nunes de Leão, em seu livro “Tesouro da fraseologia brasileira”, a frase tem origem na expressão esculpido e encarnado, numa alusão elogiosa, indicando que a pessoa foi esculpida, encarnada como uma cópia do outro a quem se assemelha. Isto sim, diz respeito à semelhança entre duas pessoas. Entretanto, algum aventureiro da invenção linguística apareceu fazendo referência ao termo esculpido em Carrara, que pode parecer romântico, por fazer menção ao mais nobre dos mármores, o Carrara, mas não faz nenhum sentido quando se quer enfatizar a semelhança entre duas pessoas.

* Marcio Almeida é Engenheiro Mecânico e Engenheiro Industrial, Administrador de Empresas, Mestre em Gestão Governamental e Ciência Política, Especialista em Direito Administrativo Disciplinar, pesquisador autodidata em Sociologia, História Política e Social e Nutrologia, Meio-Maratonista, ex Diretor de Auditoria Legislativa e ex Presidente de Processos Disciplinares na Administração Federal Brasileira, M∴M

Nenhum comentário: